Food porn: os segredos dos vídeos virais de comida

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Um vídeo de um peru de Natal coberto por batata palha sendo recheado com o que parece ser três quilos de queijo cheddar.

O vídeo tem mais de quatro milhões de visualizações no YouTube.

E é um exemplo extremo dos chamados vídeos de “food porn” algo como “comida pornográfica”, em tradução livre.

Que apresentam receitas demasiadamente suculentas, elaboradas para chocar ou fazer você salivar na mesma medida.

A verdade é que vídeos que apresentam abundância de queijo derretido, calda de chocolate ou molho barbecue estão em alta.

Assim como os que mostram um bagel de arco-íris recheado de cream cheese ou uma lasanha de 100 camadas sendo preparados.

Esses clipes curtos são um sucesso de compartilhamento nas redes sociais, e há cada vez mais evidências sugerindo que eles estão mudando as expectativas dos consumidores.

Esses vídeos são uma espécie de receita visual focada inteiramente na comida e nos utensílios de cozinha. 

Isso é o que importa.

E geralmente terminam com um close em câmera lenta do prato pronto.

“Minha primeira reação assistindo a esse tipo de coisa é pensar que são nojentas”

” Incrivelmente inúteis e absurdamente prejudiciais à saúde”, diz Thom Eagle, chef independente e crítico de comida.

“O termo ‘food porn’ é adequado porque é completamente irreal.”

Poder das redes sociais na comida

Mas Eagle, especializado em cozinha moderna e receitas de fermentação, testemunhou o poder das redes sociais. 

Coloque um prato no Instagram, diz ele, e os clientes aparecerão: “É o que mais vende no dia seguinte no restaurante”.

Hoje, as pessoas gostam de comer exatamente o que querem, quando sentem vontade e usam cada vez mais aplicativos de entrega de comida para esse fim.

Não há dúvidas de que os aplicativos revolucionaram o setor.

Mas qual será a influência dos vídeos de comida?

O AHDB monitora a opinião do consumidor sobre hábitos de cozinha e compra de alimentos. 

E pergunta o que inspira as pessoas a cozinhar em casa.

“12% afirmam que procuram inspiração para receitas no YouTube”, afirma. “Para efeito de comparação, em 2015 esse percentual era de apenas de 4%”.

As empresas que fabricam os ingredientes com os quais cozinhamos estão ansiosas para lucrar com essa febre por comida. 

Uma agência de marketing que trabalha com marcas para produzir vídeos de rede social nesse estilo é a Dish Works, com sede na Pensilvânia, nos EUA.

“Acho que o queijo talvez seja uma das coisas mais sexy que você pode usar em um vídeo”, diz Mary Bigham, presidente e cofundadora da agência.

“Quando você vê um queijo derretido e borbulhante, precisa parar e olhar para ele.”

Esse tipo de linguagem visual não se limita, no entanto, ao queijo.

Bigham diz que condimentos como ketchup ou maionese, assim como molhos derramados em câmera lenta, podem aumentar a chance de os espectadores salivarem no final.

Restaurantes lucram mais

Um restaurante de Nova York conseguiu capitalizar exatamente isso alguns anos atrás. 

O Raclette NYC é especializado em raclette, um queijo suíço que tradicionalmente é levado à mesa derretido e raspado sobre outros alimentos, como batatas, que estão no seu prato.

E decidiu postar um vídeo mostrando seus pratos na internet, que recebeu, da noite para o dia, oito milhões de visualizações.

No dia seguinte, o restaurante estava lotado de clientes – o chef precisou contratar 10 funcionários novos para atender a demanda.

Esse é o efeito que empresas de alimentos, restaurantes e influenciadores digitais estão buscando.

Bigham, da Dish Works, diz que o objetivo geral de muitos produtores de “food porn” é convencer o espectador a tentar fazer o prato em casa. 

Já que parece delicioso — e simples de fazer, por que não?

Mas isso levanta uma questão. 

Como Eagle apontou, muitas dessas receitas não são saudáveis. 

O queijo, por exemplo, é rico em sal e gordura saturada. Além disso, o tamanho das porções em muitos vídeos virais é gigantesco.

Bigham argumenta, por sua vez, que nunca teve um cliente solicitando um vídeo que considerou excessivamente prejudicial à saúde.

Mas se o excesso é parte do que faz com que muitos vídeos sobre comida viralizem, isso pode ser uma má notícia para a epidemia de obesidade que atinge o planeta.

“Minha opinião é que esses vídeos mostram realmente receitas que são calóricas e que contêm uma quantidade excessiva de gordura”, diz Roberta Alessandrini, nutricionista da Universidade Queen Mary de Londres.

“Eles realmente não representam o conceito do que deve ser uma dieta saudável”

Efeito contrário

“Por outro lado, acho que cozinhar é uma coisa positiva.”

Segundo ela, pesquisas indicam que, de maneira geral, as pessoas que cozinham em casa costumam ter uma alimentação melhor.

E, se o desafio de preparar uma lasanha de 100 camadas é capaz de levar as pessoas para a cozinha, talvez possa incentivar um hábito saudável.

Fonte: BBC News