Hidroxicloroquina funciona contra coronavírus?

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O medicamento ainda está em fase de testes em humanos para avaliar sua eficácia; a recomendação é não usá-lo ainda

Desde ontem, a cloroquina e a hidroxicloroquina se tornaram alguns dos assuntos mais comentados do momento em relação ao coronavírus. 

O boom de buscas por esse composto até então desconhecido por grande parte da população começou depois que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o medicamento é eficaz para tratar a Covid-19.

Para piorar, um áudio compartilhado no WhatsApp com informações falsas sobre o assunto começou a viralizar nesta sexta-feira 20.

De acordo com o áudio, um estudo de Stanford teria mostrado que o uso associado da hidroxicloroquina e azitromicina teria sido capaz de curar 40 pacientes com coronavírus.

E esse suposto protocolo de tratamento seria adotado no HCor e Prevent Senior, em São Paulo.

Fake News

O áudio é falso. 

De fato, a hidroxicloroquina e a azitromicina têm sido analisadas como potenciais tratamentos para a Covid-19. 

Mas o estudo em questão não foi feito por Stanford e, até o momento, não há evidência científica suficiente que comprove a eficácia do tratamento. 

Em seu site, a Universidade Stanford alerta que não envolvida no estudo que sugere que a Cloroquina é um potencial tratamento contra coronavírus.

Sobre a adoção desse protocolo como tratamento em hospitais brasileiros, o HCor esclarece que:

“Não há nenhum protocolo no hospital para utilizar hidroxicloroquina e azitromicina associados no ‘tratamento e cura’ do Covid-19. 

Trata-se de ‘fake news’, que está sendo disseminada de forma irresponsável envolvendo o nome da instituição. 

O HCor repudia de forma veemente essa atitude, que presta um desserviço à população e gera falsas expectativas.

”A Prevent Senior anunciou nesta sexta-feira o início de um estudo com a cloroquina e a azitromicina em pacientes com Covid-19.

Para esclarecer as dúvidas da população, Revista VEJA conversou com especialistas e responde as principais dúvidas sobre esses e outros tratamentos para o novo coronavírus.

A hidroxicloroquina, a cloroquina e a azitromicina funcionam contra o coronavírus? 

Ainda não se sabe. 

Nenhum medicamento foi aprovado para tratar o novo coronavírus.

Mas médicos do mundo todo têm administrado desesperadamente diversos medicamentos nos pacientes em busca de algo eficaz.

A hidroxicloroquina é um derivado menos tóxico da cloroquina. 

Ambos são medicamentos baratos e amplamente disponíveis, usados no tratamento de doenças como malária, lúpus e artrite reumatoide. 

Um estudo recente realizado em laboratório com células in-vitro sugere que o medicamento consegue impedir o coronavírus de invadir as células.

O que poderia ajudar a prevenir ou limitar a infecção.

No entanto, a droga já se mostrou promissora em testes semelhantes contra outro vírus, mas ao ser testada humanos, não foi eficaz. 

“Em estudos in-vitro, ela sempre foi bem sucedida para muitos vírus, como HIV, zika e chikungunya”

“E não seria diferente para coronavírus, mas em humanos, a cloroquina não teve sucesso em nenhum desses vírus”

” Pois para alcançar uma concentração terapêutica eficaz em humanos a quantidade necessária é extremamente tóxica.”, explica o infectologista David Urbaez, do Laboratório Exame.

Mais estudos

Outro estudo, realizado na França com 24 pacientes infectados com coronavírus mostrou que aqueles que tomaram hidroxicloroquina ou azitromicina estavam curados depois de seis dias.

Contra apenas 12,5% das pessoas que não tomaram nenhum desses medicamentos. 

Entretanto, especialistas afirmam que esse estudo ainda é muito preliminar para afirmar que o medicamento funciona. 

“Não tem ciência suficiente no trabalhos publicados para usar como protocolo de tratamento”, afirma Jorge Sampaio, médico consultor da Microbiologia do Fleury Medicina e Saúde.

“A azitromicina é um antibiótico que tem efeito anti-inflamatório, então seu uso ajudaria a combater uma resposta inflamatória exacerbada e prejudicial”

” A lógica faz sentido, mas ainda não há evidência que a substância pode ser usada nesse caso.”, reforça Sampaio.

Estudos clínicos estão em desenvolvimento em todo mundo

Diversos estudos clínicos bem desenhados sobre o uso dos medicamentos com o coronavírus estão em desenvolvimento. 

Basta ter paciência e esperar os resultados. 

“Acredito que em pouco tempo teremos um tratamento para a covid-19, mas é preciso cautela”

” Não dá para usar um medicamento sem ter certeza de sua eficácia e segurança, pois já aconteceram muitas interpretações equivocadas na história”

” A lidocaína, por exemplo, foi muito usada no tratamento de infarto e anos depois descobriu-se que ela causou a morte de muita gente”

” Então é preciso realizar testes rigoroso antes de liberar um medicamento.”, diz Urbaez.

Tomar esses medicamentos vai me proteger contra a infecção? 

Não e ainda pode colocar sua vida e a de outras pessoas em risco. 

“A automedicação pode representar um grave risco à sua saúde”, alerta a Anvisa em comunicado. 

A cloroquina e a hidroxicloroquina podem ter graves efeitos colaterais, incluindo sérios problemas cardíacos, renais e no fígado.

Além disso, a corrida às farmácias em busca de um tratamento milagroso contra o coronavírus esgotou o medicamento em muitas farmácias.

E pacientes que precisam toma-lo para tratar doenças sérias como lúpus e artrite reumatoide correm o risco de ficar sem tratamento. 

“É um ato quase criminoso tirar toda a cloroquina do comércio e deixar pacientes que realmente precisam sem remédio”

“Os pacientes estão desesperados porque não encontram a medicação em lugar nenhum”, lamenta Urbaez.

Para tentar reverter o problema, a Anvisa determinou nesta sexta-feira 20 enquadrar a hidroxicloroquina e cloroquina como medicamentos de controle especial. 

Isso significa que o medicamento só poderá ser comprado mediante apresentação de receita branca especial em duas vias. 

Pacientes que já fazem uso desses medicamentos poderão utilizar a receita simples para a compra do produto durante o prazo de 30 dias.

Qual tratamento é indicado para o coronavírus? 

No momento, a única opção é o tratamento de suporte. 

Ou seja, tratar os sintomas. 

Pacientes com sintomas leve, que não precisam de internação hospitalar, devem ficar em casa isolados – para não correr o risco de transmitir a infecção.

Além de tomar muito líquido, repousar e usar paracetamol ou dipirona em caso de febre e dor no corpo. 

“O uso de qualquer anti-inflamatório, como ibuprofeno, aspirina ou dipirona é totalmente contraindicado”

” Também não recomendamos antigripais, pois seu uso é controverso”

“O mais seguro realmente é optar por paracetamol ou dipirona”, esclarece Urbaez.

Importância do isolamento

O infectologista também ressalta a importância das medidas não farmacológicas, como o isolamento.

O distanciamento social, a higiene das mãos e etiqueta da tosse. 

“Não tem milagre nem segredo. Nunca teve”, diz.

Vacina para cachorro previne o coronavírus? 

Nos últimos dias também circulou uma notícia de que uma vacina para cachorros protege contra o coronavírus. 

E muitas pessoas decidiram acreditar nela. 

Mas, como outras por aí, a notícia é falsa. 

Ainda estamos há pelo menos muitos meses de distância de uma vacina eficaz contra o vírus.

De acordo com a Governo do Estado de São Paulo, as vacinas V8 e V10, citadas pelo material, são as principais para a saúde de cães e agem no combate de várias doenças, como cinomose e coronavírus canino da espécie CCov.

Além de vírus que causa gastroenterite (sintomas de diarreia e vômitos constantes), podendo levar a óbito. 

Os cães contraem a doença por meio de fezes de outros cães contaminados, não sendo transmissível a humanos.

Já o novo coronavírus, responsável pela pandemia de covid-19, é um vírus gênero betacoronavírus, que causa uma infecção respiratória. 

Portanto, aquelas vacinas indicadas para o tratamento de animais não têm eficácia para o novo coronavírus e não podem ser usadas em humanos.

Corrida para desenvolver um imunizante

Cerca de 35 empresas e instituições acadêmicas ao redor do mundo estão correndo contra o tempo para desenvolver um imunizante. 

Esta semana, o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos anunciou o início dos primeiros testes em humanos de uma possível vacina.

Essa velocidade no desenvolvimento e início dos testes clínicos de um imunizante é sem precedentes, mas mesmo assim não há milagre. 

Antes de poder chegar ao mundo todo, a vacina precisa passar por um rigoroso processo que analisará não só sua segurança e eficácia como a dosagem indicada etc, e isso ainda levará meses. 

Portanto, é preciso paciência.

Fonte: Veja Saúde